sexta-feira, 2 de novembro de 2012

VATICANO II,PATROMÔNIO COMUM.

O Concílio é patrimônio de todos. O Vaticano II se assemelha muito à visão obediente e audaz daquele papa eleito velho, para que fosse de transição: e que realmente foi "de transição".

A análise é Alberto Melloni, historiador da Igreja italiano, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação João XXIII de Ciências Religiosas de Bolonha. O artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera, 10-10-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Todos notaram. A 50 anos do seu início (11 de outubro de 1962), o Vaticano II ainda é capaz de apaixonar a Igreja viva. Uma paixão às vezes confusa, porque tudo – graça, catástrofe, sopro, crise, dom, promessa, traição, porta, complô, reforma, bússola, engano – foi dito sobre o Concílio, como se não existisse uma consistência histórica, como se não fosse justamente essa realidade "permista" o ponto de unidade de todos.

Assim, no fim, desse lago de categorias com pernas curtas, algumas palavras do Papa Roncalli (o Angelo Vecchione nos versos de Pasolini) reflorescem para contar o Concílio com uma visão serena: o salto para a frente, o novo Pentecostes, a pastoralidade, a paz, a unidade. Palavras que devem ser cuidadosamente limpas das minimizações e dos esquematismos que às vezes lhes capturaram.

O que, senão um redutivismo, espremeu um sínodo da "communio" e da colegialidade, ao qual o papa concede que pode ser discutido "livremente" por nada menos do que uma hora por dia? O que transformou a eclesiologia eucarística em um ritualismo pontiagudo ou as celebrações comuns em um lugar em que um grupo ou um líder colocam-se no centro? Não é uma minimização o fato de ter reduzido a Bíblia, recém-voltada do exílio, a ginástica de discursos fervorosos? Ou não seria uma moda aquela que, explorando em má-fé a eclesiologia de Bento XVI, tentou raspar a "extensão" (palavras de Scola) do evento conciliar?

Mas essas reduções e as dicotomias aventadas – espírito contra letra, traição contra abuso, continuidade contra descontinuidade, corpus contra relato – avalizam somente a primeira figura roncalliana sobre o Concílio, a do "novo Pentecostes", na qual, como na primeira, muitos que veem uma Igreja capaz de falar as línguas dos homens, se perguntam: "Mas estes estão bêbados?".

Ao invés, para João XXIII, que o concebeu, o Concílio era algo "necessário", para tornar o magistério coerente com a sua "índole" precipuamente pastoral: isto é, capaz de "encarregar-se do destinatário", dizem os teólogos; mas só as mães – incluindo a Igreja – sabem o que significa encarregar-se e quanta escuta insone merece esse destinatário que caminhará na vida buscando outra escuta e não uma religiosidade pré-pronta.

"Um grande dia de paz": esse era o Vaticano II para Roncalli, no reconhecimento a um tempo duro, mas que havia restituído ao papado o dom de se comover ao se ouvir dizer: "Tu és o nosso bispo, o bispo de Roma". E desse lema ele havia encontrado um retrato inigualável do ministério petrino: "A minha pessoa não conta nada: é um irmão que fala com vocês, um irmão que se tornou pai por vontade do nosso Senhor, mas tudo junto, paternidade e fraternidade, é graça de Deus, tudo, tudo!".

Um "época em que somos sensíveis às vozes do alto" e da qual a prova é dada pela terna exceção ao ordinário do amor, que acrescenta uma carícia a mais para as crianças: lá se colocava o Concílio e se coloca a sua fecundidade atual.

Neste outubro 50 depois, o Concílio retorna. Fez-se lembrar, conhecer. Julga todas as palavras astutas que deveriam ganhar, em corridas mesquinhas, um mesquinho avanço rumo a metas mais fátuas. Consola os caminhos penosos de quem geme o gemido da condição humana, sem nem mesmo quem tece com esses gemidos inefáveis o louvor de quem não está distante de ninguém. Acende uma sede ardente de perguntas sem fim em quem acolhe, mesmo que por um segundo, com ou sem mediação cultural, o Evangelho como Evangelho.

Pensamos naqueles que têm como tarefa não a de mediar entre facções ou de explorar as suas intemperanças, mas sim de conservar na Igreja a unidade da qual o Vaticano II foi a epifania. E ainda o é agora. A Igreja de hoje, de fato, não está dividida em duas metades, como às vezes se tende a fazer acreditar: metade contente com o Concílio, metade descontente; e nem mesmo é feita de duas minorias de papistas e de rebeldes que, para competir o consenso entre si, podem fazer de tudo e dizer de tudo.

A Igreja é, na sua inteireza, a do Concílio: com nuances, graduações, retrocessos que têm razões e histórias bem legíveis, mas que não apagam o fato de que somos testemunhas nesse cinquentenário. Isto é, que o Concílio é patrimônio de todos: a tal ponto que até mesmo os mais teimosos tradicionalistas querem o rito de São Pio V, porque até mesmo para eles o ato de celebrar é norma que gera comunidade, e não mais um sussurro distante a se misturar com o terço; e o imenso rebanho das paróquias, muitas vezes ignoradas em favor de efervescências mais visíveis e mais efêmeras, vive o seu testemunho de pobreza e de alegria.

Visto assim, o Vaticano II se assemelha muito à visão obediente e audaz daquele papa eleito velho para que fosse de transição: e que realmente foi "de transição".

PADRE PIO JAMAIS REJEITOU A "NOVA MISSA".


Padre Pio jamais rejeitou a “Nova Missa”


Padre Pio Pietralcina

Circula entre alguns grupos de católicos a ideia que todo abuso litúrgico cometido durante a celebração da Santa Missa é, necessariamente, uma consequência das “heresias e modernismos” introduzidos pelo Concílio Vaticano II. Essas afirmações, lamentavelmente, partem de católicos praticantes, em sua parte devotos e bem-intencionados. Contudo, essas pessoas, apesar de zelosas e engajadas no combate à profanação da Santa Missa, não raramente desconhecem o conteúdo dos documentos produzidos pelo CV II, uma vez  jamais os leram e deixam-se influenciar pelas opiniões equivocadas de outros.  Há ainda aqueles que apesar de conhecerem alguns dos documentos conciliares, costumam interpretá-los de modo pessoal e particular,  apartados  totalmente da saberia e autoridade do Magistério da Igreja no ensinamento da fé.
Primeiro, é importante lembrar que o Concílio Vaticano II não foi um Concílio dogmático, uma vez que não declarou nenhum dogma novo, mas sim um concílio Pastoral. Ou seja, seu objectivo era a instrução pastoral de assuntos relevantes à prática da fé e não formulação de novas doutrinas e dogmas pertinentes à ela.  A defesa do Concílio Vaticano II não é, portanto, uma tarefa apenas para os “modernistas” católicos, como costumam dizer os “tradicionalistas”, mas para todo católico obediente e fiel ao Magistério da Igreja.  Contudo, a obediência ao CVII não quer dizer desprezo  pela e solenidade da Santa Missa no Rito Tridentino, a chamada missa tridentina, nomeada assim após o Concílio de Trento.  Porém, isso não equivale dizer que a Santa Missa torna-se menos Santa quando é celebrada num ou noutro Rito, pois é um Sacrifício oferecido em nome de um Outro, maior que a nossa preferência pessoal. Não contestamos tampouco que alguns Ritos sejam mais solenes ou esteticamente mais belos que outros, contudo, a Missa não é uma celebração para o homem, mas para Deus.
É  bastante preocupante o rumor espalhado por alguns adeptos do Rito Tridentino de que um santo notoriamente fiel aos ensinamentos da Igreja,  como Padre Pio, tivesse, ao fim de sua vida, rejeitado a Missa Novo Ordus. Na verdade, isso confirma a natureza controversa deste tema e serve também com um alerta, afinal, algumas pessoas estão dispostas a se usarem até mesmo de um argumento falso, como a oposição de Padre Pio à Nova Missa, para sustentarem seu ponto de vista.
Na verdade, devido à época em que viveu, a missa que o Padre Pio oferecia era de acordo com o Missal, tal como existia antes do Concílio Vaticano II, a Missa Tridentina. Quando os novos ritos começaram a aparecer em meados dos anos 1960 (finalizado em 1969 depois de sua morte) Padre Pio continuou a celebrar a Missa no Rito “antigo”. Por esse motivo, tem sido alegado por alguns que isso ocorreu  devido à sua insatisfação com as mudanças litúrgicas. No entanto, isso não era o caso. Já com mais de 80 anos de idade e ficando cego a única maneira prática de Padre Pio oferecer a missa era reza-la como ele tinha feito ha 50 anos. Este mesmo privilégio foi concedido por lei a todos os sacerdotes idosos. Mais tarde, ao Padre Pio também seria dada a permissão para sentar-se durante a totalidade da missa, sendo incapaz de resistir por longos períodos. O verdadeiro caráter da apresentação impecável do Padre Pio para a Igreja e sua aceitação de todos os ensinamentos do Vaticano II e do Papa e da disciplina pode ser visto na carta que escreveu ao Papa Paulo VI, em setembro de 1968.
Sua Santidade,
Uno-me com meus irmãos para apresentar a seus pés o meu respeito afetuoso, toda a devoção à sua pessoa minha agosto em um ato de fé, amor e obediência à dignidade daquele a quem representa nesta terra. A Ordem dos Capuchinhos foi sempre na primeira linha no amor, fidelidade, obediência e devoção à Santa Sé, peço a Deus que ela possa permanecer assim, e continue na sua tradição de seriedade e austeridade religiosa, pobreza evangélica e fiel observância do Regra e Constituição, certamente renovando-se na vitalidade e no espírito interior, de acordo com as guias do Concílio Vaticano II, a fim de estar sempre pronto para atender às necessidades da Igreja Matriz sob o governo de Vossa Santidade.
Eu sei que seu coração está sofrendo muito estes dias, no interesse da Igreja, pela paz do mundo, para as necessidades dos inúmeros povos do mundo, mas acima de tudo, pela falta de obediência de alguns, até mesmo católicos, para o ensino de alta que você, assistido pelo Espírito Santo e em nome de Deus, estão nos dando. Eu lhe ofereço minhas orações e sofrimentos diários como uma contribuição pequena, mas sincera, da parte do menor dos seus filhos, a fim de que Deus possa dar-lhe conforto com a sua graça para seguir o caminho reto e doloroso na defesa da verdade eterna, que nunca altearão com o passar dos anos. Além disso, em nome dos meus filhos espirituais e os grupos de oração, eu o agradeço por suas palavras claras e decisivas que você, especialmente pronunciou na última encíclica “Humanae Vitae”, e eu reafirmo a minha fé, minha obediência incondicional às suas direções iluminadas.
Que Deus conceda a vitória da verdade, paz à sua Igreja, tranqüilidade para o mundo, saúde e prosperidade a Vossa Santidade de modo que, uma vez que estas dúvidas são dissipadas fugazes, o Reino de Deus triunfe em todos os corações, guiado pelo seu trabalho apostólico como Supremo Pastor de todo o Cristianismo.
Prostrado aos seus pés, peço-lhe para me abençoar, na companhia de meus irmãos na religião, meus filhos espirituais, os grupos de oração, meus queridos doentes e também para abençoar todos os nossos bons propósitos que estamos tentando cumprir sob sua proteção em nome de Jesus.
Humildemente,
P. Pio, capuchinho
Permissão é dada para reproduzir este e outros artigos publicados pelo Blog. Pedimos apenas que uma citação à fonte seja feita por meio de link ou trackback. O Blog agradece!
 
FONTE: http://igrejamilitante.wordpress.com/2012/08/12/padre-pio-jamais-rejeitou-a-nova-missa/

O CIDADÃO DO REINO DOS CÉUS.

O CIDADÃO DO REINO DOS CÉUS – Efésios 2.19


A Bíblia diz que somos concidadãos dos santos. O que é um concidadão? É um cidadão junto com outros. Ou seja, existe um grupo de pessoas que faz parte do reino dos céus e nós nos unimos a ele, recebendo a mesma cidadania quando nascemos de novo.
Está claro para você que uma pessoa precisa nascer duas vezes para morrer uma. Mas aqueles que nascem uma única vez morrem duas?
No dia que você entrou nesse mundo, o lugar onde você nasceu determinou a sua cidadania natural. Mas houve um dia em que você nasceu de novo. E quando você nasceu gerado pelo Espírito Santo, você passou a fazer parte de outra nação. A nação santa que habita o reino de Deus. Portanto, mesmo que você ainda continue morando na terra, você hoje é um cidadão de outro reino.
Em que consiste essa cidadania celestial?


F.T.: Em primeiro lugar…
I – A CIDADANIA É AGORA:
1.1. A maioria dos cristãos está esperando morrer, para se tornar um cidadão do reino de Deus. Eles pensam que hoje eles fazem parte deste mundo, mas abraçaram uma fé e se forem bons cristãos, um dia depois que morrerem finalmente se tornarão cidadãos do reino dos céus.
1.2. Mas isso é um equívoco, no momento que você nasceu no reino do espírito você se tornou cidadão desse reino. Você não precisa morrer para receber sua certidão de nascimento no reino de Deus. A certidão é dada na hora que você nasce.
1.3. Por isso, muitos cristãos ainda possuem uma vida muito natural. Porque eles estão achando que são desse mundo. Mas vamos ver na Palavra de Deus, que nós não somos mais deste mundo. Veja o que Jesus disse em João 18.36.
· Jesus tinha plena consciência de que ele estava no mundo, mas fazia parte de outro reino. Da mesma forma ele falou que nós também não somos deste mundo. João 17.14-18.
· Quem não deste mundo o mundo o odeia. E não apenas isso, mas o fato de estarmos em Cristo e de sermos enviados por Ele é uma prova inegável de que nós não somos deste mundo. Portanto a cidadania é agora.


F.T.: Em segundo lugar…
II – A CIDADANIA É INVISÍVEL: Lc.17.20-21
2.1. A segunda questão sobre a cidadania é que ela é invisível. Assim como você não precisa andar com a sua identidade na mão todo dia para mostrar às pessoas que você é um cidadão brasileiro, você também não precisa usar uma placa dizendo que é cidadão do reino dos céu.
2.2. Veja o que o Senhor Jesus falou quando os fariseus o interrogaram acerca da vinda do reino: Lucas 17.20-21.
2.3. Se alguém é americano ou brasileiro você vai descobrir por alguns motivos práticos:
a) Língua: Isso é fato que quando alguém abre a boca, você identificará a sua cidadania. Seja pelo idioma ou pelo sotaque diferente.
· Se somos cidadãos do reino ou não, a nossa maneira de falar nos delata. Existem coisas que você só vai ouvir da boca de um cidadão do reino. E existem coisas que você nunca vai ouvir da boca de um cidadão do reino. Sua língua é diferente da do mundo.
b) Estilo de Vida: Estilo de vida é a forma pela qual uma pessoa vivencia o mundo e, em consequência, se comportam e faz escolhas. A sua rotina, o seu comportamento diário são a expressão do seu estilo de vida.
· Seu estilo de vida, diz qual é a sua cidadania! Você aprecia as coisas que o mundo aprecia. Você faz o que o mundo faz? Você age da forma que o mundo age?
c) Comida: A sua cidadania também determina o seu paladar. O chinês gosta de arroz. O americano gosta de um bom café da manhã. O argentino come carne e salada no almoço. Mas o brasileiro tem que ter no prato feijão e arroz.
· O cidadão do reino dos céus, precisa se alimentar com o alimento celestial. O cidadão da terra se empanzina com as coisas da terra. Ama ficar parado de frente a uma televisão. O cidadão do reino dos céus, ama comer a Palavra do Senhor.
· Você pode não falar nada sobre a sua cidadania, mas quando alguém vir o que você come saberá a sua nacionalidade.


F.T.: Em terceiro lugar…
III – A CIDADANIA É ALGO NATURAL
3.1. A biologia ensina que existe o reino animal, o reino vegetal e o reino mineral. São 3 reinos, reinos distintos, o que distingue cada um destes reinos? A natureza. A natureza animal é uma, a natureza vegetal é outra, a natureza mineral é outra.
· Nós também somos de um reino. O reino deste mundo é o reino natural. Mas nós pertencemos a outro reino, que o reino espiritual. Nós estamos assentados com Cristo nos lugares celestiais. Você agora ganhou a natureza de Cristo.
3.2. Portanto, esse é o terceiro aspecto sobre a cidadania do reino dos céus. A cidadania é algo natural ou seja. Isso que significa ser um cidadão do reino dos céus. Significa que você não precisa se esforçar muito para ser o que é. Se você tem que se esforçar muito para ser o que você é, você não entendeu ainda o que é o evangelho.
· O que a gente vê muito hoje são pessoas dentro da igreja se segurando para não pecar. Elas conseguem ficar assim por três meses, seis meses um ano. De repente caem. Essas pessoas precisam mudar de natureza. Precisam nascer de novo. Nascer no reino. Se tornar um cidadão dos céus. Receber uma nova natureza. Senão for assim, todo esforço próprio para agradar a Deus é religião!

A EXISTÊNCIA DE DEUS

A existência de Deus

Artigos

31/10/2012
Palavra em ação
Das criaturas materiais até Deus
A inteligência humana pode conhecer a existência de Deus aproximando-se d’Ele por um caminho que tem como ponto de partida o mundo criado e que possui dois itinerários, as criaturas materiais e a pessoa humana. Embora este caminho tenha sido desenvolvido especialmente por autores cristãos, os itinerários que, partindo da natureza e das atividades do espírito humano levam até Deus, têm sido expostos e percorridos por muitos filósofos e pensadores de diversas épocas e culturas.
As vias em direção à existência de Deus também se chamam “provas”, não no sentido que as ciências matemáticas e naturais dão a esse termo, mas como argumentos filosóficos convergentes e convincentes, que o indivíduo compreende com maior ou menor profundidade dependendo de sua formação específica (cf. Catecismo, 31). Que as provas da existência de Deus não podem ser entendidas no mesmo sentido das provas utilizadas pelas ciências experimentais se deduz com clareza do fato de que Deus não é objeto de nosso conhecimento empírico.
Cada via em direção à existência de Deus alcança somente um aspecto concreto ou dimensão da realidade absoluta de Deus, o do específico contexto filosófico no qual a via se desenvolve: “partindo do movimento e da evolução, da contingência, da ordem e da beleza do mundo, pode chegar-se a conhecer a Deus como origem e fim do universo” (Catecismo, 32). A riqueza e a imensidão de Deus são tais que nenhuma dessas vias, por si mesma, pode chegar a uma imagem completa e pessoal de Deus, mas apenas a alguma faceta dela: existência, inteligência, providência etc.
Entre as chamadas vias cosmológicas, umas das mais conhecidas são as célebres “cinco vias” elaboradas por São Tomás de Aquino, que contêm em boa medida as reflexões de filósofos anteriores a ele; para sua compreensão, é necessário ter algumas noções de metafísica. As primeiras duas vias propõem a ideia de que as cadeias causais (passagem da potência ao ato, passagem da causa eficiente ao efeito) que observamos na natureza não podem retroceder ao infinito, mas devem apoiar-se em um primeiro motor e sobre uma primeira causa; a terceira via, partindo da observação da contingência e limitação dos entes naturais, deduz que sua causa deve ser um Ente incondicionado e necessário; a quarta, considerando os graus de perfeição participada que se encontram nas coisas, deduz a existência de uma fonte para todas estas perfeições; a quinta via, observando a ordem e o finalismo presentes no mundo, consequência da especificidade e estabilidade de suas leis, deduz a existência de uma inteligência ordenadora que seja também causa final de tudo.

Estes e outros itinerários análogos foram propostos por diversos autores com diversas linguagens e formas distintas, até os nossos dias. Portanto, mantêm sua atualidade, ainda que para compreendê-los seja necessário um conhecimento das coisas baseado no realismo (em contraposição a formas de pensamento ideológico), e que não reduzam o conhecimento da realidade somente ao plano empírico experimental (evitando o reducionismo ontológico), de modo que o pensamento humano possa, em suma, subir, dos efeitos visíveis às causas invisíveis (afirmação do pensamento metafísico).
O conhecimento de Deus é também acessível ao sentido comum, isto é, ao pensamento filosófico espontâneo, comum a todo ser humano, como resultado da experiência existencial de cada um: a admiração ante a beleza e a ordem da natureza, a gratidão pelo dom gratuito da vida, o fundamento e a razão do bem e do amor. Este tipo de conhecimento também é importante para captar a que sujeito se referem as provas filosóficas da existência de Deus: São Tomás, por exemplo, termina suas cinco vias unindo-as com a afirmação: “e isto é o que todos chamam Deus”.
O testemunho da Sagrada Escritura (cf. Sb 13, 1-9; Rm 1, 18-20; At 17, 22-27) e os ensinamentos do Magistério da Igreja confirmam que o intelecto humano pode chegar ao conhecimento da existência de Deus criador, partindo das criaturas (cf. Catecismo, 36-38). Ao mesmo tempo, quer seja a Escritura, quer seja o Magistério, advertem que o pecado e as más disposições morais podem tornar mais difícil este reconhecimento.
Por:Giuseppe Tanzella-Nitti
http://www.opusdei.org.br

COMO A SAMARITANA JUNTO DO POÇO: POR CARDEAL ODILO SCHRER.

Como a Samaritana junto do poço

Artigos

31/10/2012
Cardeal Odilo Pedro Scherer
Muitas vezes, a humanidade se parece, em nossos dias, com a Samaritana, que encontra Jesus junto ao poço de Jacó
A 13ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos foi concluída em Roma no Domingo, 28.10, com a Missa celebrada pelo Papa Bento 16 na Basílica de São Pedro, concelebrada pelos Cardeais, Bispos e Padres participantes do Sínodo. Foram 3 semanas de intensos trabalhos, que revelaram mais uma vez a imensa riqueza espiritual e humana da Igreja, na unidade de sua mensagem e missão e na variedade de suas expressões locais.
A Assembleia sinodal produziu um grande volume de depoimentos, reflexões e testemunhos, sintetizadas nas 58 “Propostas” finais entregues ao Papa, como resposta à sua convocação da Assembleia para ouvir o Episcopado e outros participantes sobre o tema da nova evangelização para a transmissão da fé cristã; publicou também uma Mensagem densa e bela, endereçada a toda a Igreja, que espelha as reflexões e recomendações sinodais.
Muitas vezes, a humanidade se parece, em nossos dias, com a Samaritana, que encontra Jesus junto ao poço de Jacó (cf Jo 4). Ela vem procurar água para matar a sede; o poço está no meio dum terreno pedregoso e desértico; a mulher pensa na água, mas Jesus entende a sede mais profunda da Samaritana, que vive na aridez do pecado, e lhe oferece “água viva”... ela não entende, mas Jesus já vai saciando sua sede, enquanto lhe anuncia o Reino de Deus, presente em sua pessoa. A mulher bebe, tem fé e corre para anunciar a toda a cidade que encontrou a verdadeira fonte de água viva, que todos procuravam. Ela dá testemunho sobre Jesus, o povo acorre ao seu anúncio e vai ao encontro de Jesus; e já não precisam mais que a mulher lhes fale, pois o próprio Jesus se dá a conhecer àquele povo.
Quem quiser entender o que é a nova evangelização a partir de técnicas de marketing religioso ou novas doutrinas procura bem longe do alvo. Na reflexão sinodal, o que mais apareceu é que a nova evangelização começa por levar a sério a sede de Deus que existe em todo ser humano; o terreno parece desértico e os cântaros estão vazios, por causa da negação de Deus, ou porque se tentou matar a sede de Deus com falsos deuses, idolatrias e substitutivos de Deus. Nada pode preencher o vazio de Deus no coração humano. É necessário também levar a sério os cântaros vazios: estão à espera de serem enchidos!
Quem os pode encher? É preciso ir ao encontro de Jesus, deixar-se atrair e envolver por Ele; “conversão”, este foi um conceito muito ouvido no Sínodo: conversão a Deus, a Cristo, conversão pastoral, missionária... Em Aparecida já ouvimos falar disso. Para que procurar por aí, em cisternas furadas? Por que continuar a buscar em poças lamacentas, poluídas? Conversão para voltar ao poço. O poço é Jesus Cristo. Ele tem a água viva em abundância! Quem vai chamar o povo para junto do poço? Só quem já esteve lá e matou sua sede pode fazê-lo. Todos nós, se temos fé e amamos a Jesus Cristo, somos chamados a ser como a Samaritana. Correr à cidade, chamar outra vez o povo, anunciar, testemunhar...
O Sínodo conclamou a todos para a nova evangelização e a transmissão da fé cristã: Bispos, Padres, Religiosos e demais Consagrados, Leigos, todo o Povo de Deus, na variedade de seus dons, carismas e organizações. Pais cristãos têm uma graça especial para transmitir a fé; não deixem de levar os filhos à fonte. Jovens sedentos, não fiquem no deserto, nem matem a sede com águas estagnadas; estudiosos, pessoas comuns ou especialmente encarregadas na Igreja pela promoção de um novo ânimo missionário nas comunidades católicas e na sociedade em geral. Todos estão convidados a encher seus cântaros; e assim, saciados e alegres, podemos fazer novamente florir o deserto.
Fonte: CNBB

SOMOS CIDADÃOS DO CÉU: COMUNIDADE BETÂNIA.

Somos cidadãos do Céu

Artigos

27/09/2012
Catequese
O cristão vive com os pés na terra e com o coração no céu
Com essas palavras, São Paulo indicou aos filipenses e a todos nós, cristãos, qual é a nossa vocação última. E o apóstolo acrescentou: “É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso” (Fl 3,20b-21a).
Essa é a razão da nossa esperança, aquela que São Pedro pediu que manifestássemos aos outros (cf. I Pd 3,15).
O cristão vive com os pés na terra e com o coração no céu. Toda a pregação da Igreja é baseada na esperança da ressurreição. “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé” (1 Cor 15,14), disse São Paulo. E o apóstolo afirmou: “Se é só para esta vida que temos colocado a nossa esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de lástima” (I Cor 15,19).
Muitos cristãos põem a esperança em Cristo apenas nesta vida, buscando nEle segurança, saúde, paz, conforto, dinheiro, até prestígio e prazer, só para esta vida, esquecendo-se de que são cidadãos dos céus. “Esses”, disse São Paulo, “de todos os homens, são os mais dignos de lástima” (citação livre de I Cor 15,19).
Cristo não veio para ser um libertador social (não redentor), descompromissado com aquele que disse: “O meu reino não é deste mundo” (Jo 18,36a).
Cristo nos quer a todos no céu, vivendo definitivamente com Ele. Para isso, devemos sacrificar toda a nossa vida aqui nesta terra. Foi o próprio Senhor quem nos disse claramente: “Pois, que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua vida?” (Mc 8,36). Em outro lugar disse: “Não ajunteis para vós tesouros na terra (…). Ajuntai para vós tesouros no céu (…). Porque, onde está o teu tesouro, lá também está teu coração” (Mt 6,19a.20a.21). Nosso tesouro e nosso coração devem estar no céu e não na terra.
O Senhor se fez homem e passou pela amarga paixão, morte e ressurreição exatamente para nos conquistar uma morada no céu. Momentos antes de beber o cálice da paixão, Ele disse aos discípulos: “Na cada de meu Pai há muitas moradas. Não fora, assim, e eu vos teria dito; pois vou preparar-vos um lugar. Depois de ir e vos preparar um lugar, voltarei e tomar-vos-ei comigo, para que, onde eu estou, também vós estejais” (Jo 14, 2-3). Alegremo-nos, irmãos, pois somos cidadãos do céu.
Toda a nossa vida aqui nesta bela terra deve ser apenas uma diligente preparação para vivermos eternamente com Deus que é amor (cf. I Jo 4,8). São Paulo nos assegurou que “temos no céu uma casa feita por Deus e não por mãos humanas” (cf. II Cor 5,1). Para o apóstolo a vida terrena era um exílio: “Todo o tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor” (II Cor 5,6b). E ansiava pelo céu, dizendo: “Suspiramos e anelamos ser sobrevestidos da nossa habitação celeste (…). Pois, enquanto permanecemos nesta tenda, gememos oprimidos (…). Estamos, repito, cheios de confiança, preferindo ausentar-nos deste corpo, para ir habitar junto do Senhor” (II Cor 5,2.4a.8) e “para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1,21).
Todo cristão tem de ansiar pelo céu, pois ali é o seu destino. Pelos merecimentos de Jesus Cristo, somos filhos de Deus e participantes da natureza divina (cf. II Pd. 1,4); logo, somos herdeiros do céu: “Se somos filhos, também somos herdeiros”, disse São Paulo (citação livre de Rm 8,17).
Desejar o paraíso, disse Santo Afonso de Ligório, é o mesmo quer desejar a Deus, nosso último, pois lá O amaremos perfeitamente. Ali cumpriremos perfeitamente o mandamento do Senhor: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu pensamento” (Lc 10,27). Disse Santo Afonso que a nossa meta, aspirações e desejos devem ser isto: “Ir gozar de Deus no paraíso, para amá-lO com todas as nossas forças e gozar do gozo de Deus!” E afirmou que a maior felicidade da alma no céu é conhecer a felicidade infinita de Deus. “Entra no gozo do teu Senhor” (citação livre de Mt 25,21). A alma entra na felicidade de Deus; a felicidade de Deus é a sua felicidade.
Afirmou o santo que “no céu a alma fica toda presa e consumida pelo amor de Deus. Ela fica perdida e mergulhada no mar infinito da bondade divina. Esquece-se de si mesma e só deseja amar ao seu Deus. Possui a Deus plenamente sem o medo de poder perdê-lO. A todo o momento se entrega, sem reservas, a Deus. Deus a abraça com amor, e, assim abraçada, a tem e terá por toda a eternidade. Ela nada mais deseja. Deus está unido a ela com a Sua própria essência, saciando-se na medida da capacidade dela e dos seus méritos”.
Alegremo-nos, irmãos, somos cidadãos do céu!

O DUELO ENTRE A VIDA E A MORTE

O duelo entre a vida e morte

Postado por Frei Erick Ramon


POR: Leonardo Boff

Num dos mais belos hinos da liturgia cristã da Páscoa, que nos vem do século XIII, se canta que "a vida e a morte travaram um duelo; o Senhor da vida foi morto mas eis que agora reina vivo”. É o sentido cristão da Páscoa: a inversão dos termos do embate. O que parecia derrota era, na verdade, uma estratégia para vencer o vencedor, quer dizer a morte. Por isso, a grama não cresceu sobre a sepultura de Jesus. Ressuscitado, garantiu a supremacia da vida.

A mensagem vem do campo religioso que se inscreve no humano mais profundo, mas seu significado não se restringe a ele. Ganha uma relevância universal, especialmente, nos dias atuais, em que se trava física e realmente um duelo entre a vida e a morte. Esse duelo se realiza em todas as frentes e tem como campo de batalha o planeta inteiro, envolvendo toda a comunidade de vida e toda a humanidade.

Isso ocorre porque, tardiamente, nos estamos dando conta de que o estilo de vida que escolhemos nos últimos séculos, implica uma verdadeira guerra total contra a Terra. No afã de buscar riqueza, aumentar o consumo indiscriminado (63% do PIB norte-americano é constituído pelo consumo que se transformou numa real cultura consumista) estão sendo pilhados todos os recursos e serviços possíveis da Mãe Terra.

Nos últimos tempos, cresceu a consciência coletiva de que se está travando um verdadeiro duelo entre os mecanismo naturais da vida e os mecanismos artificiais de morte deslanchados por nosso sistema de habitar, produzir, consumir e tratar os dejetos. As primeiras vítimas desta guerra total são os próprios seres humanos. Grande parte vive com insuficiência de meios de vida, favelizada e superexplorada em sua força de trabalho. O que de sofrimento, frustração e humilhação ai se esconde é inenarrável. Vivemos tempos de nova barbárie, denunciada por vários pensadores mundiais, como recentemente por Tsvetan Todorov em seu livro O medo dos bárbaros (2008). Estas realidades que realmente contam porque nos fazem humanos ou cruéis, não entram nos calculos dos lucros de nenhuma empresa e não são considerados pelo PIB dos países, à exceção do Butão que estabeleceu o Indice de Felicidade Interna de seu povo. As outras vítimas são todos os ecossistemas, a biodiversidade e o planeta Terra como um todo.

Recentemente, o prêmio Nobel em economia, Paul Krugmann, revelava que 400 famílias norte-americanas detinham sozinhas mais renda que 46% da população trabalhadora estadunidense. Esta riqueza não cai do céu. É feita através de estratégias de acumulação que incluem trapaças, superespeculação financeira e roubo puro e simples do fruto do trabalho de milhões.

Para o sistema vigente e devemos dizê-lo com todas as letras, a acumulação ilimitada de ganhos é tida como inteligência, a rapinagem de recursos públicos e naturais como destreza, a fraude como habilidade, a corrupção como sagacidade e a exploração desenfreada como sabedoria gerencial. É o triunfo da morte. Será que nesse duelo ela levará a melhor?

O que podemos dizer com toda a certeza que nessa guerra não temos nenhuma chance de ganhar da Terra. Ela existiu sem nós e pode continuar sem nós. Nós sim precisamos dela. O sistema dentro do qual vivemos é de uma espantosa irracionalidade, própria de seres realmente dementes.

Analistas da pegada ecológica global da Terra, devido à conjunção das muitas crises existentes, nos advertem que poderemos conhecer, para tempos não muito distantes, tragédias ecológico-humanitárias de extrema gravidade.

É neste contexto sombrio que cabe atualizar e escutar a mensagem da Páscoa. Possivelmente não escaparemos de uma dolorosa sexta-feira santa. Mas depois virá a ressurreição. A Terra e a Humanidade ainda viverão.